Talvez você já tenha se pegado pensando: “se a cirurgia bariátrica é tão eficaz, por que ainda tenho tanto medo?”
É uma reflexão que ecoa no coração de muitas mulheres que chegaram a considerar esse procedimento. Você não está errada ao sentir essa ansiedade. Na verdade, essa intuição pode estar te protegendo de uma decisão que merece ser tomada com muito mais informação do que normalmente recebemos.
Será que existe uma diferença entre o que nos contam sobre a cirurgia e o que realmente acontece nos anos seguintes?
Será que as histórias de sucesso que vemos representam a experiência da maioria das pessoas?
Como médica que trabalha com Medicina do Estilo de Vida, tenho conversado com muitas mulheres que viveram essa jornada. E o que mais me toca é perceber quantas delas se sentiram despreparadas para a realidade que encontraram depois.
Não é sobre desencorajar ninguém, mas sobre honrar sua inteligência e seu direito de fazer uma escolha verdadeiramente informada.
Porque talvez o mais importante não seja perguntar “a cirurgia vai funcionar?”, mas sim “eu estou preparada para o que vem depois?”
Os números que poucos compartilham abertamente
Existe uma realidade desconfortável que precisa ser compartilhada, não para assustar, mas para libertar você de expectativas que podem não condizer com a realidade.
Talvez você já tenha percebido que as histórias de sucesso que vemos são sempre dos primeiros meses, raramente dos primeiros anos.
A trajetória se repete
Os estudos científicos mostram um padrão bastante consistente:
- Aproximadamente 50% das pessoas apresentam algum nível de reganho de peso dois anos após a cirurgia
- Esse número sobre para 65-70% em cinco anos.
- Estudos brasileiros recentes mostram que mais de 90% dos pacientes voltam a ganhar algum peso após atingir seu menor peso pós cirúrgico
- A recidiva começou a ser mais significativa entre 2-5 anos após o procedimento.
O que isso significa na prática?
Significa que existe um momento crítico entre o segundo e o quinto ano pós-cirurgico. É como se houvesse um “penhasco” emocional e fisiológico que muitas pessoas precisam enfrentar.
Talvez você esteja se perguntando: “Mas por que isso acontece? Não era para a cirurgia resolver o problema?”
A resposta está em algo que a cirurgia não consegue alterar:
A cirurgia modifica o estômago, mas não modifica nossa relação com a comida, com o estresse, com nossas emoções.
Se os padrões comportamentais e emocionais que contribuíram para o ganho de peso não forem trabalhados profundamente, eles tendem a encontrar maneiras de contornar até mesmo as limitações físicas impostas pela cirurgia.
É importante consultar um médico especialista para compreender como esses fatores se aplicam especificamente ao seu caso e quais estratégias podem ajudar a navegar esses desafios.
O abandono silencioso que ninguém prevê
Há outro padrão que emerge dos estudos e que me preocupa profundamente: o abandono progressivo do acompanhamento médico.
Talvez isso pareça um detalhe menos, mas na verdade é um dos fatores mais determinantes para o sucesso ou fracasso a longo prazo.
A realidade dos números
Diversos estudos internacionais mostram que a taxa de pessoas que mantêm o acompanhamento regular diminui drasticamente ao longo do tempo:
- Entre 17% a 40% dos pacientes abandonam o acompanhamento
- A taxa varia dependendo do critério utilizado e do tempo de seguimento
- Exatamente no momento em que as pessoas mais precisam de suporte, muitas estão com menos acompanhamento profissional
Por que isso acontece?
Durante o período inicial, chamado de “lua de mel”:
- A perda de peso é rápida
- Os resultados são animadores
- Há uma sensação de que “agora está resolvido”
Mas quando a perda de peso desacelera:
- A vida “normal” retorna
- Muitas pessoas sentem vergonha de buscar ajuda
- O reganho é visto como falha pessoal, não resposta biológica
Eu me pergunto constantemente: será que estamos preparando as pessoas para entender que o acompanhamento vitalício não é uma sugestão, mas uma necessidade absoluta?
Será que estamos deixando claro que a cirurgia é o começo de uma jornada de cuidados, não o fim dela?
O contrato vitalício que ninguém assina conscientemente
Talvez uma das realidades mais subestimadas da cirurgia bariátrica seja que você está, essencialmente, assinando um contrato vitalício com seu próprio corpo.
As limitações permanentes
Sua relação com a comida muda para sempre:
- Muitas pessoas desenvolvem intolerâncias permanentes a certos alimentos
- A capacidade de comer socialmente pode ficar comprometida
- Desfrutar de uma refeição sem planejamento meticuloso se torna difícil
A suplementação com vitaminas e minerais não é uma recomendação, é uma necessidade médica absoluta para o resto da vida.
Isso porque a cirurgia altera permanentemente a capacidade do seu corpo de absorver nutrientes essenciais.
As complicações que podem surgir
Condições que podem se tornar permanentes:
- Síndrome de Dumping – mal-estar, taquicardia e diarréia após comer certas coisas
- Doenças do Refluxo Gastroesofágico pode surgir ou piorar significativamente
- Riscos específicos dependem do tipo de cirurgia realizada
Os custos ocultos
Além do investimento inicial, há custos contínuos:
- Suplementos especializados (mais caros que os convencionais)
- Consultas regulares para acompanhamento
- Exames periódicos para monitorar deficiências nutricionais
E há um custo emocional:
- Energia mental para vigilância constante
- Alteração permanente à alimentação e suplementação
- Monitoramento de sinais de complicações
Talvez seja importante se perguntar: “Estou preparada para essa nova forma de viver? Tenho o suporte necessário para sustentar esses cuidados por décadas?”
Quando o alívio se transforma em questionamento
Uma das descobertas mais importantes da pesquisa científica é sobre o arrependimento pós-cirúrgico.
Os números reais do arrependimento
Estudos recentes mostram dados precisos:
- 1,7% das pessoas relatam arrependimento absoluto
- 14,8% relatam arrependimento “moderado a forte”
- 50,4% não apresentam arrependimento algum
- 34,8% relatam arrependimento leve
O que mais me impressiona é isso
O principal fator correlacionado com o arrependimento não são as complicações cirúrgicas graves, mas sim a perda de peso insuficiente.
Isso revela algo profundo sobre a natureza humana
- Conseguimos aceitar riscos físicos quando acreditamos que vale a pena
- Mas quando o objetivo principal não é atingido, surge devastação emocional
- A sensação de que “o sacrifício foi em vão” pode ser avassaladora
As vozes da experiência
Estudos qualitativos mostram que pessoas que passaram por reganho de peso descrevem:
- Sentimentos intensos de fracasso, vergonha e culpa
- Frustração profunda com os resultados
- Uso da comida novamente como mecanismo de enfrentamento
- Ciclos que parecem impossíveis de quebrar
É como se a cirurgia tivesse alterado o corpo, mas os gatilhos emocionais que levaram ao comportamento alimentar disfuncional permanecessem intactos.
Talvez a pergunta mais importante seja: “Estou trabalhando as raízes emocionais da minha relação com a comida, ou estou apostando que a limitação física será suficiente?”
É importante consultar um médico especialista para avaliar se você tem o suporte psicológico adequado para navegar esses desafios emocionais complexos.
Um caminho que honra a sua complexidade humana
Sei que pode ser frustrante descobrir que não existem soluções que nos poupem do trabalho interno, especialmente quando você já carrega o cansaço de tantas tentativas.
Mas talvez seja exatamente essa compreensão que pode te libertar para fazer uma escolha mais sábia.
A Medicina do Estilo de Vida parte de uma premissa diferente
Em vez de perguntar “como posso contornar minha biologia?”, ela pergunta “como posso trabalhar em harmonia com ela?’
Em vez de buscar uma ferramenta externa para fazer o trabalho, ela te capacita a desenvolver ferramentas internas que são verdadeiramente suas.
O que muda quando honramos nossa integralidade
Quando trabalhamos simultaneamente com:
- Alimentação consciente e sustentável
- Movimento que dá prazer
- Sono reparador
- Estresse bem gerenciado
- Relacionamentos nutritivos
- Propósito de vida claro
Criamos uma rede de cuidados que se sustenta mutuamente.
Não é uma mudança que acontece em 6 meses. Mas é uma mudança que, quando acontece, tende a ser duradoura porque está enraizada em quem você realmente é, não em uma alteração externa.
A diferença fundamental
A cirurgia oferece uma janela de oportunidade fisiológica.
A medicina do estilo de vida oferece ferramentas para construir uma nova forma de viver – dentro dessa janela ou independente dela.
- Uma depende de manutenção externa vitalícia
- A outra desenvolve sua capacidade interna de cuidar de si mesma
Talvez a pergunta não seja “qual é mais eficaz?”, mas sim “qual me permite manter minha autonomia e dignidade ao longo dos anos?”
Uma reflexão para guiar sua escolha
Não existe escolha errada, apenas escolhas mais ou menos conscientes.
Se você decidir pela cirurgia
Que seja com a compreensão total do que está assumindo e com a medicina do estilo de vida como sua aliada:
- Plano sólido para acompanhamento vitalício multidisciplinar
- Suporte psicológico para navegar os desafios emocionais
- Trabalho integrado com alimentação consciente, movimento e gerenciamento de estresse
- Consciência de que a cirurgia é uma ferramenta, não a solução completa
Se você decidir explorar primeiro a medicina do estilo de vida
Que seja sabendo que ela potencializa qualquer caminho que você escolher depois:
- Paciência consigo mesma para mudanças profundas e duradouras
- Compreensão de que a transformação sustentável acontece em camadas
- Respeito aos seus ritmos e sua história única
- Abertura para reavaliar outras opções se necessário, sempre de forma mais preparada
A verdade é que elas se complementam
A medicina do estilo de vida não compete com a cirurgia bariátrica – ela a fortalece.
Pacientes que integram ambas as abordagens têm:
- Menor risco de reganho de peso
- Melhor qualidade de vida pós-cirúrgica
- Maior capacidade de manter os resultados
- Ferramentas internas para navegar desafios
O que sei com certeza
- Você merece cuidado integral, que olhe para todas as suas dimensões
- Você merece informação honesta, não promessas que simplificam sua complexidade
- Você merece tempo para tomar uma decisão verdadeiramente consciente
Se estas reflexões ecoaram em você
Se você reconheceu suas próprias dúvidas e anseios nessas palavras, se sente que merece uma abordagem que honre sua inteligência e sua autonomia, talvez seja o momento de considerar uma medicina que te vê como pessoa completa.
Uma medicina que não promete atalhos porque entende que a verdadeira transformação acontece quando respeitamos:
- Nossa natureza integral
- Nossa necessidade de tempo
- Nossa capacidade interna de florescer
Porque no final, talvez não se trate de encontrar a solução perfeita, mas de encontrar o caminho que permite que você seja autora da sua própria história de cuidado e bem-estar.
Este conteúdo é educativo e não substitui orientação médica profissional. Cada caso requer uma avaliação individual por profissional qualificado. Saiba mais sobre uma abordagem personalizada em medicina do estilo de vida clicando no botão abaixo.